No nosso dia a dia na CLEP-Clínica de Especialidades Pediátricas, acompanhamos famílias em diversos processos da saúde infantil, incluindo situações em que a alimentação oral se torna um desafio. Uma dessas soluções, a alimentação por via alternativa, como a gastrostomia, transforma a vida de crianças e adolescentes que necessitam de suporte especial. Vamos compartilhar nossa experiência e orientar de forma clara e objetiva tudo o que envolve esse procedimento, do momento da indicação aos cuidados em casa, sempre prezando pela informação acessível e acolhimento familiar.
O que é a gastrostomia e quando ela é indicada?
Chamamos de gastrostomia o procedimento cirúrgico que cria uma comunicação direta entre o estômago e o meio externo, através da parede abdominal. Isso permite a introdução de alimentos, líquidos e medicamentos, dispensando o uso da boca e do esôfago para quem apresenta dificuldade persistente de se alimentar por via oral.
Em nossa vivência, as principais indicações na faixa pediátrica incluem:
- Distúrbios neurológicos graves, como paralisia cerebral e encefalopatias crônicas
- Casos de disfagia severa, ou seja, dificuldade ou risco de engolir alimentos de maneira segura
- Doenças crônicas incapacitantes (fibrose cística, doenças metabólicas, neoplasias)
- Atraso significativo do desenvolvimento pondero-estatural, quando a nutrição adequada não é possível pela boca
Estudos nacionais reforçam esses dados. Publicação da UFRJ mostrou que, entre 40 crianças acompanhadas, 77,5% tinham encefalopatia crônica e mais de 60% apresentavam algum grau de disfagia. A indicação é feita após avaliação médica criteriosa, levando em conta o quadro clínico, história nutricional, expectativa de reabilitação e perfil familiar.
Dispositivos de gastrostomia: conhecendo as opções
O tipo de dispositivo a ser utilizado depende de fatores como idade, duração prevista do uso, condições anatômicas e rotina do paciente. O avanço das tecnologias permite atualmente alternativas cada vez mais seguras e confortáveis.
Sonda de gastrostomia tradicional
É um tubo flexível, de silicone ou poliuretano, posicionado diretamente no estômago. Fica com uma extremidade interna balonada (dentro do estômago) e outra, externa, para conexão do equipo de alimentação. Usada quando a previsão é de uso por um período inicial ou em situações de cuidados intensivos.
Botton de gastrostomia
Trata-se de um dispositivo mais discreto e baixo perfil, semelhante a um botão sobre a pele, que permite conexão fácil com o sistema de alimentação e reduz riscos de trações e desconfortos. Desde 2021, o SUS incorporou essa tecnologia para crianças e adolescentes, facilitando a rotina domiciliar e a participação em atividades cotidianas.
Imagens do processo de gastrostomia e tipos de dispositivos
Métodos de inserção: cirúrgico ou endoscópico?
Existem duas abordagens principais para implantação da gastrostomia:
- Cirúrgica clássica: realizada em ambiente hospitalar, com anestesia geral. O estômago é cuidadosamente exteriorizado e o dispositivo é posicionado sob visão direta. Indicada quando há cirurgias associadas, deformidades anatômicas ou impossibilidade da via endoscópica.
- Endoscópica (PEG): procedimento menos invasivo, realizado por endoscopia, ideal para a maioria dos pacientes pediátricos sem contraindicações específicas. Recuperação mais rápida e menor agressividade.
Na prática, a decisão parte de diálogo multiprofissional e revisão das condições de saúde da criança, respeitando sempre o contexto familiar e as características do paciente.
Cuidados diários: protegendo saúde, segurança e conforto
Após o procedimento de inserção do tubo, a rotina exige alguns cuidados que vão além do simples ato de alimentar. Na CLEP, acompanhamos cada família e fornecemos treinamento personalizado para garantir segurança e autonomia no cuidado em casa.
Rotina de higiene do estoma e do tubo
O cuidado do orifício exige limpeza diária com água filtrada e sabão neutro. Após o banho, é necessário secar completamente, manipulando a região com mãos limpas e observando sinais de vermelhidão, calor ou inchaço. O uso de antissépticos não é rotineiro, sendo reservado para casos específicos após orientação médica.
É importante rotacionar levemente o dispositivo (quando indicado) para evitar aderências na pele. Trocar curativos, se utilizados, periodicamente, sempre mantendo a área seca.
Como realizar a alimentação e hidratação pela gastrostomia?
Explicamos sempre que o segredo está na tranquilidade e no respeito ao ritmo da criança. O alimento pode ser ofertado via seringa ou equipo gravitacional, conforme orientação da equipe de nutrição e enfermagem. As refeições devem replicar o mais próximo possível o padrão nutricional recomendado, evitando diluições excessivas ou oferta prolongada, para não causar vômitos ou desconfortos.
- Flush com água filtrada antes e após administração de fórmulas ou medicamentos, prevenindo obstruções
- Oferecer água entre as alimentações (volume e frequência definidos pelo especialista)
- Monitorar o volume residual, se orientado, para não sobrecarregar o trato digestivo
Evite forçar volumes altos ou administrar fórmulas muito espessas, pois podem provocar refluxo ou entupimento do tubo.
Principais complicações: como prevenir e agir?
Nenhum procedimento está livre de intercorrências, mas monitoramento atento e conhecimento dos sinais de alerta permitem a identificação precoce de situações que requerem atendimento médico. Segundo a experiência reportada no Hospital Universitário da UFRJ, cerca de 45% das crianças podem apresentar algum evento adverso, sendo o extravasamento gástrico e inflamação local as mais recorrentes (15%).
Sinais de atenção:
- Saída de secreção purulenta ou material gástrico ao redor do estoma
- Vermelhidão intensa, dor persistente, sangramento, edema (inchaço) ao redor do local
- Entupimento do tubo, impedindo a passagem dos líquidos ou alimentos
- Crescimento exagerado de tecido granulação (massa avermelhada na borda do orifício)
- Deslocamento completo ou parcial do dispositivo
Algumas orientações para evitar complicações:
- Higienizar as mãos antes de qualquer manuseio
- Fazer flush rigorosamente antes e após os usos, evitando acúmulo de resíduos
- Em caso de entupimento, tentar irrigação com água morna filtrada, nunca objetos pontiagudos
- Evitar mobilizações bruscas e trações acidentais
Prevenção e observação diária são nossa prioridade para garantir o bem-estar dos pequenos.
O papel da família, equipe multiprofissional e rotina de acompanhamento
Na CLEP, reafirmamos diariamente que a adaptação ao uso da gastrostomia deve ser leve e colaborativa. O suporte familiar é peça central no sucesso da nutrição enteral domiciliar.
Desde a indicação, o treinamento ativo da família e cuidadores é fundamental. Orientamos sempre quanto aos cuidados de rotina, administração de medicamentos, identificação de intercorrências e procedimentos para situações emergenciais.
- Consultas regulares com a equipe médica, enfermagem e nutrição para reavaliação da necessidade da gastrostomia
- Avaliação do crescimento e desenvolvimento
- Troca do dispositivo conforme prescrito (tempo varia de acordo com o tipo de material e recomendações do fabricante)
- Revisão de técnicas e abordagem de dúvidas frequentes
O acompanhamento multiprofissional garante que a criança tenha uma recuperação adequada, prevenindo atrasos nutricionais e minimizando riscos. A participação ativa de todos fortalece a segurança, especialmente em situações de doença intercurente, mudanças na alimentação ou intercorrências locais.
Sugerimos a leitura sobre o atendimento multiprofissional em saúde infantil para quem deseja entender como diferentes especialidades atuam juntas, promovendo o cuidado integral.
Viajando, brincando e vivendo com gastrostomia: orientações práticas
Um dos grandes receios das famílias é conciliar a rotina de viagens, banho, escola e lazer com o uso da alimentação enteral. Sempre reforçamos que uma vida ativa deve ser estimulada, com adaptações simples para manter o conforto e a segurança:
- Durante o banho, proteger a área do estoma com curativo impermeável nos primeiros meses ou quando houver indicação
- Em viagens, levar kit reserva (tubos, extensores, material de higiene, prescrição, contatos médicos)
- Praticar atividades físicas com ajuste de roupas e proteção do dispositivo
- Atenção redobrada em ambientes de praia e piscina: o contato breve com água normalmente é seguro, desde que a cicatrização esteja completa e a pele limpa
- Dialogar com escolas e cuidadores, treinando o manejo do dispositivo, evitando constrangimentos e falhas na administração de alimentos ou medicamentos
Crianças e adolescentes com gastrostomia podem e devem ser inseridos plenamente em atividades apropriadas para sua faixa etária, garantindo bem-estar psicológico e social.
Troca do dispositivo: quando e como realizar?
A periodicidade da troca depende do modelo, material e integridade do dispositivo. O “botton” costuma ter intervalos maiores, enquanto as sondas tradicionais requerem renovação mais precoce, conforme avaliação clínica.
Na maioria dos casos, a substituição pode ser feita em ambiente ambulatorial, por equipe habilitada, valendo-se de anestesia local e monitorização mínima.
Recomendações de segurança durante a troca:
- Nunca tentar fazer manipulações ou trocas por conta própria, exceto em situações emergenciais orientadas previamente pelo especialista
- Observar sinais de perfuração, dor abdominal intensa ou sangramento profuso após o procedimento
- Agendar revisões periódicas para avaliar a cicatrização, posicionamento e função do tubo
Nenhuma troca deve ser realizada sem supervisão de equipe qualificada.
Quando procurar atendimento médico?
Listamos algumas situações de alerta para orientar nossos pacientes e familiares:
- Dor abdominal persistente e de forte intensidade
- Sinais de infecção sistêmica: febre, calafrios, mal-estar
- Sangramento abundante pelo estoma ou interior do tubo
- Deslocamento total do dispositivo ou perda de função
- Extravasamento volumoso de alimentos/líquidos ao redor da pele
- Entupimentos não solucionados por irrigação leve
Jamais hesite em buscar avaliação médica diante de alterações comportamentais, dor ou desconforto intenso, pois intervenções precoces permitem resolução sem prejuízos maiores.
Acompanhamento individualizado e a necessidade de revisão periódica
Mantemos a convicção de que a gastrostomia, embora beneficie a nutrição e desenvolvimento, não deve permanecer além do necessário. O desmame do dispositivo é realizado quando há recuperação da deglutição, melhoria do quadro de base ou reabilitação motora que permita alimentação oral segura.
O processo de retirada é gradual e monitorado por toda a equipe multiprofissional.
Recomendamos sempre uma visão integrada da saúde da criança, conforme discutimos também na seção de medicina integrada. A participação de todos, inclusive de especialistas em pediatria, nutrição, fonoaudiologia e enfermagem, é decisiva para o sucesso do acompanhamento.
Conclusão
A alimentação segura, confortável e eficaz faz toda a diferença na rotina das famílias que precisam do suporte da gastrostomia. Na CLEP, cada paciente é acolhido de maneira única, com planos de cuidado desenhados conforme sua realidade e expectativa. Buscamos reduzir medos, tirar dúvidas e participar ativamente do cotidiano dos pequenos.
A periodicidade do acompanhamento, o conhecimento dos sinais de alerta e o envolvimento familiar garantem que riscos sejam prevenidos e o bem-estar seja conquistado dia após dia.
Se você deseja conhecer outros temas relevantes para a saúde infantil ou deseja esclarecimentos específicos sobre gastrostomia, convidamos a navegar pelos artigos do nosso blog e agendar uma consulta em nossa clínica. Nossa equipe está pronta para acolher sua família e oferecer todo o suporte necessário, sempre com atenção, respeito e compromisso.
Perguntas frequentes sobre gastrostomia pediátrica
O que é gastrostomia infantil?
A gastrostomia infantil é um procedimento em que se cria um acesso direto ao estômago da criança, por meio de um pequeno orifício na parede abdominal, permitindo a administração de alimentos, água e medicamentos de forma segura, especialmente quando há dificuldade ou impossibilidade de se alimentar pela boca.
Quando a gastrostomia é indicada em crianças?
A indicação ocorre principalmente para crianças com distúrbios neurológicos graves, como paralisia cerebral, disfagia importante (dificuldade de engolir), doenças crônicas que impossibilitam a alimentação oral eficaz ou quadros em que o desenvolvimento nutricional está em risco.
Quais os cuidados após a colocação da sonda?
A rotina inclui higiene diária do estoma, uso de água filtrada e sabão neutro, secagem cuidadosa, oferta de alimentos pelas técnicas recomendadas, flush com água antes e depois das refeições, observação de sinais de infecção e comparecimento regular ao acompanhamento médico e multiprofissional.
Quais complicações podem ocorrer na gastrostomia?
Complicações que podem ocorrer incluem extravasamento de material gástrico, infecções no local do estoma, inflamação (vermelhidão, dor, inchaço), obstrução do tubo e deslocamento do dispositivo, além de crescimento exagerado de tecido de granulação na borda da pele.
Quanto custa uma gastrostomia pediátrica?
O valor da gastrostomia pediátrica pode variar conforme o método de inserção, local do procedimento, tipo de dispositivo e cobertura do plano de saúde ou sistema público (o SUS já disponibiliza o botão para crianças com indicação médica). É fundamental consultar equipe especializada para avaliar necessidade e possibilidades de acesso ao procedimento.
Continue acompanhando nossos conteúdos, como o artigo sobre cuidados especiais e sobre suporte familiar em situações de saúde complexas, e agende uma conversa conosco na CLEP. Juntos podemos oferecer um futuro mais saudável e acolhedor às crianças e adolescentes.
